CRÔNICA DE UMA CIDADE DEMASIADAMENTE AMADA

 

         Quase um conto de fadas, a meu ver, o “pincel” do olhar deste rapaz que enleva a doçura, a sutilidade e o prazer; a proferir mudos versos de amor e reverência à sua cidade amada, mui leal na sua formosura e encantamento, anunciando deitada naturalmente em suas linhas femininas, sombreadas nas palavras de Oscar Niemeyer, que afirma que o Rio de Janeiro é uma mulher.

         Um ainda aprendiz olhar de um sobrevivente esperto, que trabalha a luz à sua fidalguia, que espreita diuturnamente um latente prazer em se dar, aos incautos pedintes, sôfregos de proteção, ternura e razão de viver. É o que Luis Teixeira Mendes, seu nome, desfralda sobre nós tremulante, ciosa que o simples aliado a um olhar amoroso pode e deve dentro das circunstâncias operacionais, reter e passar além do singelo, sua escolha benemérita, a vertigem superior, a gratidão histórica, o respeito individual às coisas simples, mesmo aquelas erguidas pelo homem. Daí o mérito deste seu olhar...ver e sentir... visão enaltecida mesmo que seja sobre uma pedra.

         Porém, ao verificarmos sua procedência “porque me ufano de ser artista”, esta herança flutua desde os cinco anos de idade quando presenciou a demolição a marretadas do cinema Azteca, em que o prédio se moldava ao lado da sua casa, no Catete. Formado em jornalismo, sua identificação com a imagem em movimento é tamanha e foi, através dela, que conheceu um soberbo filme do diretor americano Stanley Kubrick, que foi fotógrafo, o “Barry Lyndon”, película totalmente eivada sob o lumiar de velas, e que o marcou para sempre, passando a partir deste episódio adorar fazer fotografia.

         E, mesmo sabendo que a fotografia única é uma criação exclusivamente sua, ele alimenta sonhos de se transpor para o cinema, um dia, quem sabe. Aproveitemos, então, sua generosidade, perfilando, cantando sua cidade sob a égide de uma louvável compostura visual e significativa deste seu olhar enternecido e, exposto, quer estar.

 

                                                                                     Walter Firmo

O COSTUREIRO DE IMAGENS

 

Tic-tac tic-tac tic-tac. Entretempos. Museu da modernidade. É o Costureiro de Imagens cuidando do substrato a ser costurado. Click! Ele se esmera em drapear e faz, de seus figurinos-fotografias, formosuras. Quem por ele passa, logo quer saber de seu ofício. “O que faço? Vampiros, divas, Clarices, Penhas - resgatadas de penhascos - Drummonds, índios. Sou monumental. E sou malandro também, tudo na santa Paz de Deus. Imaculadas são as Conceições!” Redimido.

 

O fotógrafo logo nos convida a transitar entre o santo e o profano. É o túnel Velho do Tempo. Dá adeus à inocência e nos oferece interlocuções tipicamente cariocas ao som de Cartola e Tom, dentre outros tons. Notas de justiça social, dignidade e labuta que abraçam a diversidade do Ser Humano. Costurar imagens, palavras e reflexos, necessário.

 

 

No “meio do caminho”, o roer do amor.  O Costureiro de Imagens a vê no espelho entre pós e “pós”. Ela é quase burlesca, mas se veste de tou. Ela é felliniana, banha-se na Fontana di Trevi. O seu cenário? Fontes plurais que falam da origem do Mundo, Courbet. A mulher, com seu sexo e seu ventre dá à luz. O Costureiro de Imagens oferta luz e sombra. Os cliques secretos de suas árvores são a modelo de Courbet. Entre suas pernas jaz Jesus Cristo.

 

Com licença, a poética é o espaço do Costureiro de Imagens, o desejo de amar. Volúpia escadaria abaixo. A dama de vermelho escadaria da Penha acima... Amor: consanguinidade de laços. “Amor à moda antiga”. E viva as vestimentas de Lispector!

 

 

Ah, limites entre realidades e imagens, como um Trompe-l’oeil - Chopin – ele está aqui, na nossa Urca; trabalhador da Comlurb – ele está aqui, nas nossas casas e o banhista – ele está lá, no mar. Quem de nós, cariocas, vive sem eles?

 

Xangô, meu pai! Venha restabelecer a ordem na cidade conflituosa de Oxóssi. Que reinem a dança e a profundidade expressiva, afinal é disso que o Costureiro de Imagens gosta: palácios, reverências e luxúria. Um mundo emblemático do imaginário romântico.

 

 

 Marisa Rosado Gamarra 

CRÔNICA CARIOCA DE UM RIO PARTICULAR NUM MUSEU SINGULAR

 

O Museu da República é mesmo singular. Sendo um museu nacional, não deixa de ser um museu comunitário e local, com forte presença na vida social dos moradores do bairro do Catete e adjacências. Sendo um museu social e de bairro, e sobremaneira contemporâneo, não deixa de ser um museu da/para a cidade do Rio de Janeiro, em perspectiva nacional. O Museu da República é mesmo singular. Por esta singularidade, a exposição “CRÔNICA CARIOCA DE UM RIO PARTICULAR” cabe como uma luva em seus espaços expositivos. O olhar sensível e particular de Luis Teixeira Mendes para uma cidade cosmopolita como o Rio de Janeiro é trazido à luz por meio de suas fotografias, especialmente em tempos contemporâneos, quando a imagem da cidade está sendo tão avacalhada, enxovalhada, bombardeada. A maestria curatorial e precisa de Walter Firmo fazem com que a exposição descortine a poética presente no instante apreendido no ato fotográfico de Teixeira Mendes. E com alegria que o Museu da República reinaugura parte do terceiro pavimento do Palácio do Catete e abre-se aos temas e discussões da contemporaneidade republicana, manifestadas por meio de diversas linguagens poéticas. O Museu da República acolhe os poetas que outrora foram expulsos da República. Sejam bem-vindos!